sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Do amor

«O Amor não Rende Juros

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É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece»
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo, um roubo — apesar de, em sensações, ser magnífico. O amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.

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A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
O fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

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É desarranjo de estratégias e planos,
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica
os vizinhos.
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países,
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia.
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não.

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No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor
entre? Não é mercadoria traficada em caixas,
que as caixas são objectos que se abrem ao meio
— e é possível, com uma lanterna, olhar lá para dentro.

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O amor não se vê como
se fosse uma presença.
É demasiado completo
para ter uma forma. E como jamais
se conseguiram obter juros de uma coisa
que não ocupa espaço, é preferível não, parece-me. »

Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"




Escrever sobre o amor nem sempre é fácil. Hoje em dia julgo que boa parte das pessoas, essencialmente no que diz respeito ao universo feminino, anseia 'criar' um amor. E educá-lo como se ele se tratasse de uma pequena criança em que podemos decidir o melhor para ela. Neste caso, decidir o que (e quando) é melhor para nós! A meu ver, a verdadeira razão para o fazerem é a tentativa de fuga a uma paixão que nos troque as voltas, para procurar, ao invés disso, algo que (nos) dê a tão desejada e necessária estabilidade. Quanto a isto já ouvi algumas amigas dizerem que adorariam apaixonar-se pelo seu melhor amigo: ele nunca as magoaria! E isto é tão verdade.

No entanto, não deixa de ser também verdade que as verdadeiras paixões não são as que ansiamos educar mas sim as que selvaticamente se constroem a si próprias (julgamos nós), aquelas pelas quais tanto lutamos para que desapareçam mas que teimam em desafiar-nos. Não sendo totalmente assim, como é óbvio, é o que muitas vezes aparentam.

Se o amor «carrega tijolo»? Não. E, por vezes, é preferível não... Sabemos vivê-lo assim?



9 comentários:

MissGummyBear disse...

Acho que nunca vi reflexão tão acertada sobre o amor. Adorei :)

vânia disse...

é mesmo!
quanto ao dizerem que os melhores amigos nunca as magoariam, não concordo com isso. não nos esqueçamos que os nossos melhores amigos, por mais que achemos que eles nunca fariam nada para nos magoarem, são seres humanos tal como nós. e erram!

V' Gonçalves disse...

Adorei mesmo o que escreveste, está genial! Vou-te seguir, se poderes faz o mesmo :)

"AnD'z" disse...

sabes eu não posso ignorar totalmente, a minha irmã mete aquilo em altos berros na tv... nem com headphones me escapo :x

quanto a novos títulos... se eles pagarem bem arranjo um nome porreirinho :P

Catarina disse...

Tens toda a razão no que dizes sobre o amor. Contudo, acho que mesmo com um pouco de dor à mistura, toda a gente gosta de um amor desobediente, por mais que tente negar. Está dentro de nós desejá-lo. (:

Alexlisboa disse...

Sem duvido. Adoro. vou seguir (:
Segues? (:

Daniela Pereira disse...

é verdade, mas engraçado foi que só encontrei alguém que valia a pena, depois de deixar de deixar de pensar nos "critérios" que tinha para encontrar um "amor".
Por acaso o meu parceiro antes era o meu melhor amigo, mas ao contrário das tuas amigas, eu na altura não queria nada namorar com ele, não fazia nada o meu estilo, era o contrario de mim, não gostava das mesmas coisas que eu, até que um dia sei lá... deu-me um vaipe ou algo do género, comecei a gostar dele... sem mais nem menos... já ele... gostava de mim há mais de 2 anos (coitado)...

Inês disse...

concordo com tudo o que escreveste! :)

Patrícia disse...

MissGummyBear, muito obrigada :)

vânia, claro que sim e para além disso corríamos fortemente o risco de estragar uma grande amizade.

V' Gonçalves, obrigada. Aparece sempre que quiseres (:

Catarina, exactamente. Se assim não fosse não seria amor.

Alexlisboa, obrigada. Eu também :D

Daniela Pereira, sim parece que quando se procura a probabilidade de encontrar é menor xD Sabes eu acho que uma parte disso acontece com muitas raparigas... achar que o melhor amigo seria o ideal, mas faltar a parte do gostar dele dessa forma.

Inês, obrigada. :)