Caros leitores, debrucemo-nos então sobre a questão do prestígio. O eterno poeta (por diversas vezes, ainda prosador) Fernando Pessoa esclareceu-nos sobre as condições para se ser uma pessoa admirada pelos outros. A ordem é uma e não se pode inverter: primeiro, a diferença (aliada à não-inferioridade), segundo, o mistério e, por último, a superioridade. Quanto a mim, até aqui está claro. Não sei se porventura para vós também estará.
A questão que coloco é: Será o prestígio um atributo apenas dependente da acção do sujeito ou envolverá essencialmente o reconhecimento da sociedade por ele?
A meu ver, o caminho traçado por cada uma dessas conceituadas pessoas é extremamente relevante para que se consiga alcançar essa espécie de estatuto abstracto e relativo. Contudo, esse esforço realizado pelo próprio não só não é suficiente, como (atrevo-me a dizer) pode não ser, em alguns casos, a primeira premissa para o reconhecimento do prestígio. É digno salientar o papel da classificação que os outros nos atribuem. Nós somos aquilo que os outros pensam de nós. Não concordam? Então vejamos, há pessoas que se podiam distinguir ora pelas suas telas inspiradoras, ora pela sua escrita sublime, sem esquecer a música nem a representação, a ciência e outras tantas vertentes da arte. «Toda a arte.»
Toda a arte tem pelos recônditos cantos do mundo quem possa ocupar mais alguns espaços no lugar de Homens prestigiados, quiçá, de génios. No entanto, o fundamental é conquistar do seu púlpito (corpóreo ou não) pessoas, públicos, admiradores. Fácil? Não, como Pessoa afirmou só se começa por admirar aquele que sendo superior é-o sendo, sobretudo, diferente. Se assim não se suceder, o que restará será inveja, inveja e mais inveja.
Ainda assim é de salientar o facto de ninguém deixar de ter mérito pelo prestígio alcançado porque está dependente do juízo e consentimento dos outros. O caminho do prestigiado é sempre árduo, a conquista do público sempre custosa.
Portanto, e em jeito de conclusão, creio que o agente que faz nascer o seu prestígio não o consegue sem público, nem o público faz um génio se ele não o for e quiser [pode ser a mola impulsionadora não mais que isso], ambos agem cumulativamente.
«Parece que a primeira condição do prestígio deve ser a superioridade — a superioridade por nós reconhecida. Não é assim. A só superioridade não evita a inveja (…)
A quem não temos por superior, e nos supera nos benefícios da vida, invejamos, invejamos simplesmente. A quem temos por nosso superior, porém como da mesma espécie que nós e nosso superior só em grau, invejamos ainda, porém de diverso modo: invejamos que a Natureza, que não já a Sorte ou o Destino, lhe concedesse as qualidades, por meio das quais nos supera. A quem, porém, sentimos não só superior, senão também diferente, dificilmente invejaremos, salvo se a inveja for uma disposição habitual nossa. Não há contraste sem semelhança. Não podemos comparar-nos com quem nos não parecemos. O nosso superior semelhante faz o que fazemos, porém melhor; o nosso superior diferente faz o que não poderíamos fazer nunca. (…)
A primeira condição do prestígio é, pois, necessariamente a diferença — a diferença, porém, desacompanhada de inferioridade. Todos sentimos diferente um louco ou um imbecil; a nenhum damos prestígio. Não falemos ainda de superioridade; falemos só de diferença. A primeira condição do prestígio é a diferença que não é inferior. É que todo o raro, desde que não seja baixo, atrai e preocupa.
Como, porém, a diferença tanto mais nos preocupará quanto menos pudermos definir em que consiste, segue que a segunda condição do prestígio é o mistério. Todos os grandes fascinadores se destacam por diferentes, e se insinuam por não se revelarem. Quando ouvirdes dizer que certo homem é «interessante» — é o primeiro adjectivo do prestígio — vereis que se deve entender que de certo modo se não compreende bem o que pensa, o que sente, que carácter tem. (…)
A terceira — mas só a terceira — condição do prestígio é, então, a superioridade. Quando é enorme e sensível envolve já a diferença, e por aí, que não por si, se prestigia. Quando é súbita, deslumbrante envolve já o mistério, e por ele, que não por si, adquire prestígio. De per si — isto é, como superioridade explicável, racional — não é nem o primeiro nem o segundo elemento da sujeição do espírito alheio.
São estas as três condições do prestígio. Quem queira analisar o conteúdo d'ele não encontrará mais que isto. O prestígio do homem de génio é d'esta ordem, porque o génio é diferente e misterioso.»
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
No próximo post, farei uma breve abordagem a este assunto: Como e quando se alcança prestígio? Será um atributo apenas dependente das nossas acções ou envolverá essencialmente o reconhecimento da sociedade?
Aqui fica um metódico exercício mental de Fernando Pessoa por palavras dele próprio:
«Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d'elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras.
A frase, aparentemente simples,assenta contudo em uma intuição que conviria que os psicólogos e os sociólogos meditassem de perto — o amor ao prestígio como grande anseiohumano, a vaidade como qualidade primária do homem social. (…)
Não é mais a vaidade que a confiança no efeito do valor próprio. A confiança só no valor próprio, que não no efeito d'ele, é outra coisa, e chama-se orgulho. Podem coexistir, podem não coexistir. Tão contraditória é a aparência da condição humana, que, podemos confiar no efeito de nosso valor, sem confiar nesse valor mesmo. É que na vida do espírito a acção precede sempre a consciência; movemo-nos antes que o queiramos.
Seja como for, a importância social da vaidade é implícita na definição, (que demos)d'ela. Ao passo que a confiança no valor próprio, porém não no efeito d'ele, — isto é, na aceitação d'ele por outrem — intimida e paralisa o esforço, pelo receio da desilusão e da dificuldade; a confiança no efeito d'esse valor necessariamente estimula para a acção.
Há por isso um sinal distintivo, pelo qualse diferençam os orgulhosos dos vaidosos: os orgulhosos são tímidos, os vaidosos são audazes. Há quem seja cumulativamente orgulhoso e vaidoso; quem o é será tímido e audaz ou intermitentemente, ou em manifestações diferentes do espírito.
Se a vaidade é mais ridícula que o orgulho, é que é por natureza activa, e se revela sempre; o orgulho, como se esconde, mal pode aparecer onde o escarneçam. Por isto, e ordinariamente, tem-se a vaidade por baixa, e por nobre o orgulho. Nem um, nem outro, é nobre ou deixa de sê-lo. Pela razão já exposta — a essência activa da vida —, a vaidade é mais vulgar, o orgulho — sobretudo o orgulho sem, ou com pouca, vaidade — raro. Da sua raridade se deriva — (assim) como de seu menor ridículo e de sua pouca incidência, por inerte, sobre outrem — o mito da sua nobreza.
É a vaidade a mestra do esforço, o sal da acção, o alimento da vida. Todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina.(…)
Como o orgulho vive para dentro, pensando e sentindo, e a vaidade para fora, operando, resulta que, ante o conseguimento alheio, o primeiro movimento de um é o desconsolo e o tédio, da outra o despeito e a inveja. A inveja é a qualidade primária da comparação social: gera as intrigas e as malícias de que se compõe a quotidianidade da vida; estimula rancorosamente o esforço que se vai cansando; é a matriz de quase todas as censuras e de todas as revoluções.
Tal é a realidade da vida humana: a vaidade como base, a inveja como meio, o progresso como fim. Certos há, porém, que escapam à inveja do comum dos homens. Ao sentimento, que despertam, e pelo qual fogem a essa inveja, chama-se ordinariamente prestígio. O prestígio é, pois, aquela imposição da nossa personalidade aos outros, que não lhes desperta a inveja.»
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.