No dia 18 de Junho de 2010, Portugal perdeu um homem de escrita inigualável. Contudo, a falta da substância sólida que acompanha o Homem pela sua efémera passagem pela vida terrena (leia-se corpo) não impede que se afirme e até consolide a magnificência da sua vasta obra.
É importante que se leia Saramago, que se leia cada vez mais e mais. É ainda mais importante que as entidades competentes inculquem, nas camadas mais jovens, o gosto pela leitura, em geral, e pelo “estudo” do Nobel, em particular. Porém, se é verdade que é necessária a existência de pessoas e grupos que fomentem a literacia no nosso país, é de igual forma verdade que não conseguiremos ser cidadãos mais cultos e instruídos se a iniciativa não partir de cada um de nós (se é que me faço entender).
Voltando a Saramago, devemos perceber que, à parte ideologias políticas e cores partidárias, é preciso que todos vejam a sua obra por dois pontos fulcrais que aqui saliento: primeiro, a luta pela defesa dos mais fracos, dos mais pobres e mais desfavorecidos, por aqueles que independentemente do tempo histórico sempre foram tidos como “marginais” pela restante sociedade; segundo, a riqueza cultural que nos ofereceu, não esquecendo o nível a que conseguiu elevar a língua portuguesa.
Para os amantes da Pátria, até mesmo os mais conservadores, esta é uma qualidade difícil de contrariar. Por muito que se reme contra a maré, este pode ser o melhor dos argumentos, a mais sofisticada das persuasões: a capacidade de o autor fazer relembrar Portugal, a sua língua e cultura ao mundo. Digo isto não esquecendo obviamente que com a regra vem a excepção e admitindo assim o dogmatismo de algumas mentes, que chega a ser de tal forma medíocre ao ponto de negar o talento, trabalho e criatividade de alguém que o mostrou em cada um dos seus livros. Nem todos temos de apreciar Saramago, mas não reconhecer o seu talento, a meu ver, torna-se problemático.
A obra é longa, a vida é curta – um género de vaticínio daquilo que é o desígnio do homem? Talvez – mas a vida que o autor teve, proporcionalmente curta relativamente àquilo que a todos era capaz de oferecer, não impediu que nos deixasse um tesouro em mãos – seremos nós dignos de o honrar? – Não saberei responder, mas por tudo isto e algo mais (que em simples palavras não se pode evidenciar com precisão) tiro-lhe o chapéu.