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sexta-feira, 10 de junho de 2011

esta semana tem sido passada assim...

à volta de livros!

(estes dois têm me acompanhado particularmente. não é que não esteja a gostar de lê-los mas não vejo a hora de ver o trabalho de melp terminado e - por favor, se não for pedir muito - sentir-me satisfeita com ele.)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"A potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos"

Sem tempo para mais, aqui fica outro excerto:

«O homem parecia ter desapontadamente perdido o sentido do que queria anotar. E hesitava, mordia a ponta do lápis como um lavrador embaraçado por ter que transformar o crescimento do trigo em algarismos. De novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve o desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que, mal escrevesse a primeira, e seria tarde demais. Tão desleal era a potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos. Na realidade o pensamento daquele homem era apenas vasto, o que não o tornava muito utilizável. No entanto parece que ele sentia uma curiosa repulsa em concretizá-lo, e até um pouco ofendido como se lhe fizessem proposta dúbia.»

Clarice Lispector, A Maçã no Escuro

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Leitura




Imagem do filme


Adorei "A Fórmula de Deus" de José Rodrigues dos Santos. Ando com uma vontade enorme em reler "Expiação" de Ian McEwan.

Tinha algures esta citação guardada: "Como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus? Não há ninguém, nenhuma identidade, nenhum ser superior a quem ela possa apelar, com quem possa reconciliar-se ou que possa perdoar-lhe. Não há nada para além dela. Foi ela que marcou os limites e os termos, com a sua imaginação. Não há expiação para Deus, nem para os escritores, mesmo que sejam ateus. É uma tarefa impossível, e a questão foi precisamente essa. O que conta é a tentativa."


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Apenas (a minha) opinião


No dia 18 de Junho de 2010, Portugal perdeu um homem de escrita inigualável. Contudo, a falta da substância sólida que acompanha o Homem pela sua efémera passagem pela vida terrena (leia-se corpo) não impede que se afirme e até consolide a magnificência da sua vasta obra.

É importante que se leia Saramago, que se leia cada vez mais e mais. É ainda mais importante que as entidades competentes inculquem, nas camadas mais jovens, o gosto pela leitura, em geral, e pelo “estudo” do Nobel, em particular. Porém, se é verdade que é necessária a existência de pessoas e grupos que fomentem a literacia no nosso país, é de igual forma verdade que não conseguiremos ser cidadãos mais cultos e instruídos se a iniciativa não partir de cada um de nós (se é que me faço entender).

Voltando a Saramago, devemos perceber que, à parte ideologias políticas e cores partidárias, é preciso que todos vejam a sua obra por dois pontos fulcrais que aqui saliento: primeiro, a luta pela defesa dos mais fracos, dos mais pobres e mais desfavorecidos, por aqueles que independentemente do tempo histórico sempre foram tidos como “marginais” pela restante sociedade; segundo, a riqueza cultural que nos ofereceu, não esquecendo o nível a que conseguiu elevar a língua portuguesa.

Para os amantes da Pátria, até mesmo os mais conservadores, esta é uma qualidade difícil de contrariar. Por muito que se reme contra a maré, este pode ser o melhor dos argumentos, a mais sofisticada das persuasões: a capacidade de o autor fazer relembrar Portugal, a sua língua e cultura ao mundo. Digo isto não esquecendo obviamente que com a regra vem a excepção e admitindo assim o dogmatismo de algumas mentes, que chega a ser de tal forma medíocre ao ponto de negar o talento, trabalho e criatividade de alguém que o mostrou em cada um dos seus livros. Nem todos temos de apreciar Saramago, mas não reconhecer o seu talento, a meu ver, torna-se problemático.

A obra é longa, a vida é curta – um género de vaticínio daquilo que é o desígnio do homem? Talvez – mas a vida que o autor teve, proporcionalmente curta relativamente àquilo que a todos era capaz de oferecer, não impediu que nos deixasse um tesouro em mãos – seremos nós dignos de o honrar? – Não saberei responder, mas por tudo isto e algo mais (que em simples palavras não se pode evidenciar com precisão) tiro-lhe o chapéu.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O desenlace

Surpreendentemente, o homem duplicado era o próprio Tertuliano Máximo Afonso e não António Claro (ou Daniel Santa-Clara, como lhe quisermos chamar). Um primeiro encontro deles confirmou o que se esperava, eles não eram sósias, nem gémeos, eram absolutamente iguais, uma cópia autêntica um do outro.


Nasceram no mesmo dia, mês e ano, mas não na mesma hora. António Claro nascera primeiro o que provava que era ele o original. Contudo, pela ordem "lógica identitária" que os unia, o primeiro a nascer seria também o primeiro a morrer e nesse espaço que existia entre a morte do primeiro e a morte do segundo, poderíamos concluir que por escassos momentos na vida o duplicado passaria a original.


O desenrolar da acção parece correr a um ritmo alucinante para o final, o desenlace (tal como numa tragédia grega) dá-se em parte como se esperava, mas não inteiramente… Estas páginas da escrita de José Saramago, que ninguém será capaz de igualar, serão quiçá as de um dos mais originais e cogitados livros do escritor.


Sobre O homem duplicado de José Saramago


terça-feira, 10 de agosto de 2010

A ler ...

O Homem Duplicado de José Saramago:


“O caos é uma ordem por decifrar”


“ (…) os nossos antepassados só depois de terem tido as ideias que os fizerem inteligentes é que começaram a ser suficientemente inteligentes para terem ideias”

As palavras são proferidas por Maria da Paz, num diálogo com a personagem principal, Tertuliano Máximo Afonso [o tom jocoso com que “ouvimos” o seu nome já fora antecipado pelo autor, como de resto seria de esperar] que se aventurará pela descoberta da identidade daquele que é o seu duplicado. Até agora adianta-se apenas um nome, (
Daniel Santa-Clara) António Claro. Presumo que o suspense continuará até às últimas páginas, espero que surpreenda.